Entrevista de Dona Nemézia

A realeza de Vila Bela da Santíssima Trindade

Incansável e com um coração do tamanho do mundo, sempre preocupada com o bem-estar das pessoas que estão à sua volta. Essas são as principais características de Nemézia Profeta Ribeiro, 76 anos, nascida e criada em Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso.

Dona Nemézia, como é conhecida, é uma mestre em contar a história da cidade, a resistência dos negros e indígenas e trabalha pela valorização da cultura, da identidade local e das raças, promovendo o respeito à diversidade. Descendente de quilombolas, ela conduziu sua vida inspirada na história de Teresa de Benguela, líder do Quilombo Quariterê (ou do Piolho) no século 18, e na sua luta pela preservação da cultura e da diversidade racial.

Desempenhando o trabalho de mulher, mãe, dona de casa e servidora pública, dona Nemézia ainda tinha disposição para ser promotora da cultura e da arte local. Há 60 anos atua na organização da Festa do Congo e da Festa do Divino Espírito Santo. Nos dias de festa as pessoas se vestem com as roupas de costume, preparam a comida típica, cantam e dançam. Contando sobre as comemorações, ela se emociona ao falar do neto de sete anos: “ele canta músicas africanas e dança na festa do Congo. Um orgulho para mim que sempre fui defensora da nossa cultura e que não deixo a história cair no esquecimento”, pontua. É uma das fundadoras de vários movimentos como a Irmandade de São Benedito

“Faço isso por amor e para que nossa cultura seja mantida por muitos e muitos anos”

O respeito à diversidade, às diferentes culturas e raças é uma marca ensinada por ela e por muitas pessoas da comunidade às crianças e jovens. Ela conta que na região há muitos descendentes de africanos e chiquitanos (grupo indígena que habita o Oeste do estado de Mato Grosso e leste da Bolívia). O grande envolvimento dela com os movimentos culturais e a festa do Congo lhe renderam a posição de Rainha da Festa do Congo há alguns anos, o que para ela foi a principal recompensa e reconhecimento de todo o trabalho desenvolvido por ela.

Seu grande envolvimento com as manifestações culturais, artísticas e preservação histórica da região fez com que ela ficasse conhecida na cidade como uma verdadeira historiadora, testemunha viva da vida dos quilombolas. Frequentemente é procurada pelas escolas locais para contar a história da cidade e a falar sobre diversidade de raças. Dona Nemézia diz que o trabalho de resgate e valorização da cultura afro-brasileira é “silencioso e de formiguinha”, mas não se cansa e está sempre envolvida com alguma atividade. Agora mesmo, ela planeja montar enxovais de bebês para doar para jovens mães que não têm condição.

Com a idade já avançada, ela conta que reduziu o ritmo de compromissos. Atualmente cuida apenas da coordenação da Festa do Congo e do Divino Espírito Santo e aceitou recentemente o convite para ser coordenadora de núcleo da Cooperativa Sicredi Noroeste MT e Acre, e faz questão de participar das reuniões. E é desse jeito, cuidando das pessoas, fortalecendo a sua história e de seus antecessores que dona Nemézia faz a diferença na sua cidade e na região.